Não saber como a cidade funciona para diferentes grupos sociais é uma lacuna grave do planejamento urbano, que aprofunda as desigualdades e, como consequência, aumenta os impactos das múltiplas crises que vivemos atualmente. Cada pessoa, com características e contextos sociais e econômicos diferentes, também vive a cidade de forma diferente. A esta diferenciação de experiências, de acordo com o contexto social e econômico, dá-se o nome de interseccionalidade. Por exemplo, para mulheres e meninas, em especial, racializadas e moradoras de áreas periféricas, o contexto urbano é um fator complicador em suas vidas, em diversos aspectos. A questão central é que o planejamento de uma cidade é feito sem considerar essas diferentes perspectivas. Elas simplesmente passam despercebidas no desenvolvimento do plano.
Ao não se levar em conta as informações interseccionais no planejamento urbano, acaba-se por excluir estes grupos sociais da construção das cidades. Quando tais informações são coletadas de forma genérica, temos o cidadão universal como um padrão que, historicamente, é o homem, branco, cisgênero, sem deficiência e de classe média (Bassam, 2023). Ao ignorar o cruzamento de marcadores como gênero, raça, classe, território e sexualidade, as políticas públicas podem perpetuar desigualdades espaciais profundas, invisibilizando aquilo que elas não medem. E isso traz graves problemas, em diversos setores, tais como:
Mobilidade
O planejamento do transporte é concebido com foco no fluxo casa-trabalho-casa (o Padrão Pendular) nos horários de pico. No entanto, ao cruzarmos gênero, raça e classe, observamos outros padrões. Mulheres realizam a mobilidade do cuidado, que é trajeto fragmentado, em horários alternativos, conectando creches, postos de saúde, clínicas, mercados e o emprego (muitas vezes informal). O setor de mobilidade urbana das nossas cidades não enxerga isso. Sem mapear esses deslocamentos, o transporte público continua sendo mal conectado, em especial, entre bairros periféricos e o centro, não atendendo às demandas reais, e penalizando quem tem menos recursos, menos tempo, mora mais longe e, principalmente, desempenha o papel de cuidador primário (Linke, 2025).
Iluminação Pública
Ao se desconsiderar as interseccionalidades na questão da iluminação urbana, o resultado é mais violência em determinadas áreas, afetando desproporcionalmente grupos sociais específicos, como os moradores de regiões periféricas. O racismo estrutural, o medo da violência e da violência de gênero moldam as trajetórias de mulheres, pessoas LGBTQIA+ e jovens negros. E a falta de iluminação afeta diretamente a autonomia, o direito à cidade e a segurança desses corpos.
A Infraestrutura e o Racismo Ambiental
É óbvio que a distribuição de saneamento básico, de coleta de resíduos, de áreas verdes, de equipamentos públicos, etc., nas cidades é desigual. Os territórios mais vulneráveis a desastres climáticos são os que menos recebem infraestrutura e investimentos (são invisíveis), e são majoritariamente habitados por população negra e de baixa renda. O conceito de racismo ambiental foi desenvolvido pelos pesquisadores Benjamin Chavis e Robert Bullard. Em suas pesquisas, eles mostraram que os bairros periféricos, onde moram pessoas mais pobres, bem como minorias étnicas e raciais, são os que mais sofrem com a degradação ambiental e seus impactos na saúde (Baptista e Santos, 2022).
Portanto, a ausência de indicadores que cruzem os perfis socioeconômico e de gênero dos moradores impede a resiliência urbana e a justiça social.
Como colocar a interseccionalidade em foco (e no mapa)?
Para superar essa invisibilidade, é preciso, em primeiro lugar, romper com o planejamento de cima para baixo (top-down). Os dados quantitativos oficiais são fundamentais, mas insuficientes se não forem combinados com dados coletados com metodologias participativas, como o mapeamento participativo, por exemplo. Com este método e possível trazer o conhecimento local das comunidades — especialmente das lideranças femininas e periféricas — para o mapa. Onde estão os pontos críticos de insegurança? Quais caminhos são evitados? Quais são os pontos que precisam ser fortalecidos? Onde ocorrem as enchentes e deslizamentos? Onde há mais crianças e idosos em áreas de risco? E mais dezenas de perguntas como estas precisam ser respondidas para que nossas cidades possam ser planejadas com justiça. Quando as próprias comunidades cocriam os seus diagnósticos urbanos e as suas soluções, transformam vivências cotidianas em dados técnicos legítimos que fazem a diferença.
Por isso, a produção de dados que cruzem informações socioeconômicas, de gênero, de raça e de território torna-se essencial hoje. Sistematizar e territorializar os dados sob uma lente interseccional é o único caminho para que o planejamento urbano deixe de reproduzir privilégios e aprofundar desigualdades, e passe, finalmente, a projetar cidades que sustentem a vida em sua pluralidade e diversidade.
Referencias
Bassam, N. The gendered city. Book. 135 p. 2023
Baptista, A.C.S. & Santos, I.P. 2022. O RACISMO AMBIENTAL NA METRÓPOLE PAULISTANA: ENTRE OS BECOS E VIELAS DE SÃO PAULO. https://abpnrevista.org.br/index.php/site/article/view/1352/1295
Linke, Clarisse. (2025). Mobilidade do cuidado: Deslocando a mobilidade urbana para garantir cidades que cuidam. Revista Transporte y Territorio. 66-86. 10.34096/rtt.i33.17265.