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Mapeamento Participativo e Educomunicação: Como dados comunitários podem ajudar as cidades a enfrentar as policrises

No início de outubro, participei do Simpósio “Pedagogies of Polycrisis: Education, Communication, and the Technopolitics of Knowledge”, a convite da Prof. Renira Gambarato e da Prof. Paola Sartoretto, na Jönköping University, na Suécia, no qual apresentei o mapeamento participativo como uma prática de educomunicação com os cidadãos. A seguir, detalho a minha apresentação.

O que são as policrises, afinal?

As cidades vivem hoje o que chamamos de policrise. Elementos como urbanização acelerada e não planejada, pobreza, vulnerabilidade, emergências climáticas, doenças, déficit habitacional, violência, desigualdade, falhas e deficiências na infraestrutura urbana não ocorrem isoladamente. Eles acontecem juntos e estão conectados entre si. Quando se sobrepõem, o impacto sobre o bem-estar e a saúde dos cidadãos é muito maior, e quem sente primeiro e com mais força são sempre os mesmos territórios: os periféricos e vulneráveis.

Quando ocorrem estas sobreposições de vulnerabilidades, soluções isoladas não resolvem. Para agravar ainda mais, os bairros periféricos são sistematicamente excluídos das bases espaciais oficiais e dos mapas de planejamento urbano. Poucos ou nenhum dado acaba sendo coletado nessas áreas, e suas populações vivem à margem do desenvolvimento. Obviamente, o que não está no mapa não entra na política pública. Dados ausentes ou imprecisos levam a recursos mal distribuídos, a decisões negligentes e a uma exposição ainda maior a riscos socioambientais para grupos sociais já vulnerabilizados. Isso é injustiça espacial.

Falta ao planejamento urbano compreender como a cidade funciona para diferentes grupos sociais. Essa lacuna aprofunda desigualdades e amplifica os efeitos das crises que enfrentamos, como eu já escrevi aqui (https://www.comunidadesvivas.com.br/a-invisibilidade-de-dados-interseccionais-no-planejamento-aprofunda-as-desigualdades-e-a-crise-urbana-2/).

Há ferramentas que oferecem suporte na gestão de uma policrise?

Sim, há, e não apenas uma.

O mapeamento participativo é uma delas. Mapear de forma participativa é o processo de produzir mapas com as pessoas. Um mapa representa o que os moradores percebem e vivem no seu território, e no seu dia a dia. Ou seja, ninguém mais sabe o que eles sabem, muito menos os gestores urbanos. Na prática, o processo de mapear com as pessoas costuma ter três etapas gerais:

  • Engajamento e cocriação: parcerias com lideranças locais, moradores e organizações de base para coletar e produzir dados. Essa etapa é a cocriação de conhecimento inédito e pode ser realizada com ferramentas acessíveis e adaptadas ao contexto da comunidade, como o Google My Maps ou a cartografia em papel.
  • Análise dos dados coletados e cruzamento com dados pré-existentes.
  • Validação coletiva: os dados voltam aos moradores através de oficinas, onde são verificados e onde se definem prioridades e próximos passos, assim como o desenvolvimento de produtos para disseminação.

Assim, pode-se dizer que o mapeamento participativo dialoga com a educomunicação. A junção do mapeamento participativo com práticas de educomunicação é uma chave importante que pode impulsionar o conhecimento do cidadão e colocá-lo no centro da agenda urbana. O mapeamento participativo une educação, comunicação e participação social, e transforma as pessoas em criadoras e produtoras de conhecimento sobre o seu próprio lugar. Também se constroem capacidades no uso de ferramentas espaciais e se criam narrativas em conjunto, que posteriormente podem ser disseminadas na forma de diversos tipos de produtos, como cartilhas, livros, site, documentários, relatórios, facilitações gráficas, etc.

 

Na minha apresentação, também falei dos três principais projetos de mapeamento participativo que executei, e fiz as conexões com a educomunicação.

  • Guarulhos (SP). Em um território marcado por indústrias, poluição, segregação e pobreza, realizámos um curso de extensão da USP, em parceria com uma ONG local. Foram 22 estudantes do ensino médio, entre abril e junho. A meta era introduzir fundamentos de mapeamento e de prática de planejamento para despertar consciência socioambiental. Usámos mapas falantes, mapas em escala, e desenvolvemos com os participantes um jornal comunitário e um painel integrado para o desenvolvimento de estratégias, além de uma pesquisa online para o planejamento local. Os mapas permitiram fazer um diagnóstico local básico e formular novas propostas para o bairro, que foram divulgadas no jornal comunitário produzido pelos jovens participantes e também no site do projeto e apresentações no município (https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/19463138.2021.2019041).
  • Paraisópolis e Brasilândia (São Paulo). Também trabalhámos em dois territórios vulneráveis da capital paulista. Em ambos, o processo gerou informações valiosas para o planejamento local e fez emergir problemas que só quem vive e trabalha ali consegue apontar com precisão. Propostas também foram mapeadas, e os mapas finais foram divulgados em postagens, no site e em relatórios (https://www.rbciamb.com.br/Publicacoes_RBCIAMB/article/view/1035).
  • Victoria (Canadá). Neste projeto, o meu mais recente, apliquei o mapeamento participativo com crianças de 11 e 12 anos numa escola canadiana. Parte da equipa também realizou as mesmas atividades participativas no Brasil. Os jovens participantes elaboraram mapas, fizeram painéis integrados de soluções e trabalharam em publicações que serão divulgadas em breve (artigo disponível aqui: https://digital.detritusjournal.com/articles/grassroots-innovations-from-youth/5596#:~:text=10.31025/2611%2D4135/2024.19387)

Por fim, como os dados comunitários podem ser usados para criar soluções reais e sustentáveis?

Quando a comunidade produz seus próprios dados, ela decide como o território é representado e, portanto, planejado. Os moradores passam a ter evidências concretas para dialogar com órgãos municipais e urbanistas. Esses dados também ajudam a:

  • melhorar a resposta a desastres
  • identificar estratégias locais de adaptação
  • propor melhorias e soluções no bairro
  • reivindicar investimentos públicos

O mapeamento participativo, como prática educomunicativa, transforma comunidades marginalizadas em protagonistas. Também é essencial coletar dados que integrem informações socioeconómicas, de genero, de raça e de território. É o único caminho para que o planejamento urbano deixe de reproduzir privilégios e aprofundar desigualdades, e passe a desenhar cidades que sustentem a vida em toda a sua pluralidade e diversidade.

(Fotografia: Carolina Carvalho)

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